DA FACADA À CARTA

 

“A cadela do fascismo está sempre no cio.”

Bertolt Brecht

 

Um dos maiores problemas que o Brasil enfrenta com o bolsonarismo é a completa e deliberada desconexão com a verdade por parte desse grupo de extrema direita. É como se existisse um país paralelo no qual a realidade pudesse ser moldada de acordo com os interesses desse segmento político. E esse mundo virtual se dá em quase todas as questões. Tenho escrito muito sobre a dificuldade abissal de disputar narrativa com quem não tem ética, limite. Para qualquer um que tenha responsabilidade e caráter – sim, é uma questão de caráter -, as discussões políticas têm que se nortear por uma série de compromissos. Quando se disputa espaço e poder com a extrema direita bolsonarista, os golpes abaixo da cintura são a regra. Nos mínimos detalhes. É quase impossível enfrentar a avalanche de mentiras e distorções que sustentam o discurso extremista. E uma boa parte dos eleitores, incautos e ingênuos, prefere embarcar numa realidade virtual.

 

Questões, em tese, simples tomam uma dimensão que preocupa a estabilidade democrática. Entendo, até pela experiência como advogado criminal, que a organização criminosa bolsonarista entrou no modo desespero. Imagine um grupo despreparado, sem cultura e sem visão histórica que, de repente, governou por quatro anos um país como o Brasil! Depois de saquear o país e destruir boa parte das instituições democráticas e as conquistas sociais – em todas as áreas: saúde, educação, economia, cultura, ciência, agronomia, todas –, esse bando descobre que está sendo responsabilizado pelos crimes e fracassos.

 

A tentativa de golpe de 8 de janeiro nada mais foi do que uma reação de defesa dessa organização criminosa. Ao verem que seriam, e serão, processados e presos, tentaram dar um golpe para poderem se livrar de uma responsabilização criminal. Se o golpe tivesse dado certo, seriam eles que escreveriam a história. De bandido a heróis. Simples assim. E essa continua sendo a tônica que norteia a discussão política neste momento. Já escrevi diversas vezes que o Poder Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal, um poder em regra patrimonialista, machista, misógino e até racista, foi quem colocou o pé na porta e não permitiu a instalação da ditadura no Brasil. A estabilidade democrática, ainda frágil, mantém-se pela coragem constitucional da Corte Suprema. A grande maioria das críticas, repito sempre, dá-se mais pelos acertos do que pelos erros do Poder Judiciário. E a tentativa de desestabilizar a democracia ainda é a tônica da extrema direita.

 

A ousada estratégia de tentar eleger o filho do presidiário para salvar o grupo todo da responsabilização criminal não encontra limite. Distorcem e criam factoides para manter a lealdade dos eleitores bolsonaristas. Resolveram, agora, afrontar outra vez o Supremo Tribunal ao descumprirem, de maneira clara e direta, uma decisão do ministro Alexandre de Moraes. E o descumprimento se deu em cadeia nacional pelo candidato a candidato à presidência da República. Uma jogada política. Como foi a tal facada durante a campanha. Acintosamente, o Senador Flávio Bolsonaro combinou com o presidiário que leria uma carta em rede nacional, escrita como uma peça política, para testar o Supremo Tribunal. Afrontar. Desestabilizar. Na visão dos fascistas, qualquer resultado seria vantajoso. Se o descumprimento público e ofensivo desse ensejo à revogação da prisão domiciliar seria um gol. A possibilidade de vitimizar o presidiário poderia significar uma hipótese de virar o jogo político. A volta para a Papuda poderia ser um trunfo numa campanha atolada em escândalos. Se o presidiário viesse a óbito, para esse grupo seria a glória. Seria a chance de se livrarem de uma prisão familiar. O desespero é péssimo conselheiro.

 

Uma estratégia pensada para alimentar o eleitorado foi colocada em prática. Descumprem uma ordem de um ministro do Supremo e ocupam os espaços midiáticos para saírem das cordas. Sabem que, com o avançar das investigações sobre os mais variados escândalos, inclusive os milhões do Master do tal filme fajuto, inapelavelmente, logo o Senador candidato estará sendo responsabilizado criminalmente. Mais uma vez a opção é fazer o enfrentamento. A única saída jurídica seria a revogação da prisão domiciliar por descumprimento das condições impostas. Simples assim. Mas, o momento delicado comporta ainda riscos institucionais. A determinação de responsabilizar aquele que descumpriu os deveres de quem tem direito à visita e proibir o contato do filho candidato com o presidiário foi sensata e inteligente. Agora, a defesa do Bolsonaro terá que apresentar uma justificativa para o deliberado e político descumprimento da ordem judicial. Infelizmente, a extrema direita joga e aposta no esgarçamento, no confronto. Resta aos democratas, mais uma vez, o apoio ao Supremo Tribunal e às instituições democráticas. Neste momento de definição sobre os rumos do país, é bom ter a certeza de que enfrentaremos ainda muita turbulência. Nenhum grupo abre mão facilmente do poder. E, quando a derrota eleitoral significar um acerto com um passado/presente de graves crimes, aí, certamente, um vale tudo será institucionalizado. A democracia exige que nós não nos intimidemos. Vamos enfrentá-los e vamos vencer. Nas urnas. Nos tribunais. Nas ruas. Onde for preciso.

 

Lembrando-nos do velho Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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