UM VOTO PELA DEMOCRACIA: CONTRA O ÓDIO E CONTRA A BARBÁRIE

“É preciso sair da ilha para ver a ilha.”

José Saramago

 

Na primeira vez que andei de avião, eu já era adulto e estava me formando em Direito. Foi para a festa de casamento de uma prima em São Paulo. Lembro-me de que fizeram uma venda de pedacinhos da gravata do noivo para os convidados e, com a arrecadação, pagaram minha passagem. O engraçado foi que eu voei de Varig, que tinha um serviço excepcional, e, quando passou o carrinho cheio de bebidas e guloseimas, eu agradeci à aeromoça. Devo ter feito uma cara pidona porque o senhor que estava ao meu lado, quando me viu recusar, falou baixinho: “Está tudo incluído, pode pegar o que quiser!”. Imediatamente, dei um assobio alto e a aeromoça voltou e, claro, entupi-me de cervejas e sanduíches. A festa foi muito divertida e alegre.

 

Recordo-me disso, tantos anos depois, com uma saudade apertada de um tempo em que a sociedade não era dividida pelo ódio. Você ia a um encontro de família e, mesmo com todas as diferenças, sabia que seria uma confraternização de amor e carinho. Não existia a hipótese de encontrar uma divisão, uma agressão, ainda que velada, ou uma animosidade decorrente de um posicionamento político ou comportamental diferente. As pessoas se respeitavam e o ódio não fazia parte das nossas vidas.

 

O bolsonarismo fragmentou o país, as famílias e os amigos. Uma seita baseada na mentira, na falsidade e na raiva dos princípios democráticos, na aversão aos pobres, aos povos originários, aos pretos, às mulheres e aos que assumem uma sexualidade diferente da que eles propagam – pois eles não se assumem. Enfim, ódio à vida. Semeiam a cizânia, apostam na violência, no ódio e na agressividade. Como mentem muito, é uma característica da ultradireita, adotam como regra uma postura arrogante e se jactam da própria ignorância. A mentira e as fake news são estratégias que sustentam um discurso vazio e sem compromisso com a realidade.

 

Roubam à luz do dia, porém, mantêm uma narrativa de honestidade. Saquearam o país e agora prometem entregá-lo aos EUA, mas se dizem patriotas. Usam o nome de Deus para impressionar os incautos e, em nome de Deus, entregam-se às orgias mais descaradas. Prostitutas pagas com dinheiro público. Um bando de hipócritas que conseguiu tornar o Brasil um lugar tóxico. Hoje, uma simples ida a uma festa de família, como um casamento, requer certos cuidados ao encontrar aquele primo ou tio bolsonarista e sectário. O bolsonarismo é como uma praga, um vírus, uma doença.

 

Faço essa reflexão para que pensemos na importância das eleições de domingo, dia 25. Não é uma eleição qualquer. Se a ultradireita ganhar, estaremos validando uma divisão odiosa no Brasil. Será como dar um passe livre à normalização da institucionalização da violência e do desprezo aos direitos humanos, aos direitos dos pobres, dos negros, das mulheres e dos menos favorecidos. Será um salvo-conduto para a disseminação do preconceito. A mentira sendo coroada como regra de comportamento e a corrupção como método de usar o bem público. Estarão validadas todas as compras sem procedência do dinheiro, as rachadinhas, o apoio às milícias e aos assassinos de aluguel e às sociedades ocultas com quem reconhecidamente fraudou e saqueou os cofres públicos. Enfim, é a vitória da barbárie sobre a civilização.

 

Essa é a exata dimensão do que estará em jogo com o voto de cada um de nós. Estará nas nossas mãos uma claríssima opção pelo Estado democrático de direito ou pela ruptura institucional. De maneira descarada, o candidato Flávio Bolsonaro já deixou claro que irá desmontar o SUS e todas as políticas sociais implementadas pelos últimos governos, não apenas pelos do Presidente Lula. E a completa subserviência aos interesses dos EUA. Perderemos mais do que a soberania ao entregar nossas riquezas naturais. O Brasil será um quintal dos norte-americanos em troca de uma segurança de proteção aos inúmeros crimes cometidos pelos bolsonaristas nos últimos tempos. Essa eleição, para a família Bolsonaro, é, na verdade, uma busca de imunidade, uma maneira de escapar da prisão. Até por isso, não pouparão esforços; será, literalmente, um vale-tudo.

 

Não existe, em absoluto, uma divisão entre esquerda e direita; o que está em jogo é muito mais profundo. Quando se normaliza a violência e o ódio, na verdade, valida-se a opção pela morte dos princípios que regem e norteiam uma convivência democrática e saudável.

 

Uma sociedade manietada e com medo é um terreno fértil para o florescimento da cultura do bolsonarismo de extrema direita. E o obscurantismo será nosso destino e nosso precipício. As almas insepultas dos 700 mil mortos na pandemia, pela irresponsabilidade negacionista do então presidente Jair Bolsonaro, vão continuar rondando os milhões de familiares e amigos que ficaram com a dor da perda. É também por eles que vamos votar contra Flávio Bolsonaro.

 

Tenho repetido, nos últimos dias, que numa Democracia é possível perder uma eleição; o que é inadmissível é perder a Democracia numa eleição. A vitória da ultradireita terá esse significado: a morte do Estado democrático de direito. Está em nossas mãos o destino do país. Nossa arma é o voto em Lula e Alckmin, contra o ódio e contra a barbárie.

 

Lembrando-nos sempre da reflexão de Virginia Woolf:

 

“Cada um de nós tem dentro de si um silêncio tão vasto quanto o universo. E quando o escutamos, aprendemos a viver.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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