POR QUEM OS SINOS DOBRAM? OS SINOS DOBRARAM PARA A DEMOCRACIA. ELES DOBRARAM POR TI!
“Tudo é político, inclusive seu silêncio conveniente e fantasiado de neutralidade.”
Antonio Gramsci
Assim que terminou o primeiro turno, com a constatação da vitória de Flávio Bolsonaro sobre a Democracia, escrevi um pequeno artigo afirmando que o resultado era muito bom e importante. E alertei que, se tivéssemos tido mais votos do que o miliciano naquele momento, nós perderíamos as eleições no segundo turno. A derrota parcial foi um alerta necessário. A campanha precisava de uma chacoalhada. E todos nós precisávamos de um frio na barriga, de um certo medo de perder a Democracia numa eleição e de um pavor em ver a hipótese de a barbárie vencer a civilização.
Todos se mobilizaram. Veio sangue novo para a estratégia de campanha. A juventude, assustada, resolveu tomar as ruas e deu origem ao movimento mais bonito e forte da história do Brasil depois da redemocratização. Vendo os jovens nas ruas — sem o chamado dos coordenadores da campanha, mas como algo natural e com espírito de sobrevivência e de necessidade democrática —, os mais velhos, a terceira idade, também resolveram que eram responsáveis pelo destino do país. Foi muito bonito. Emocionante e impactante. O Brasil acordou e disse não ao fascismo, à ultradireita e aos métodos milicianos. Um vídeo meu explicando o que é a milícia e os riscos que ela representa para a Democracia atingiu 2 milhões de visualizações. Tudo espontâneo. Tudo com o coração. Era a esperança vencendo o medo.
E tivemos personagens que se agigantaram, como o Janones e seu exército, de mais de 10 milhões de arregimentados em poucas semanas. Ele gritava tanto que era possível ouvi-lo de casa, com tudo desligado. Ninguém dormia com os gritos dele. Era a voz da sociedade que se recusava a admitir o retorno da violência, do obscurantismo e do preconceito.
Saímos da campanha analógica e fomos para as redes, para dominar o digital. O Lula, que nem tem celular, rendeu-se à força inexorável da tecnologia. Os vídeos dele com nossos influenciadores digitais alcançavam milhões e milhões de pessoas. Ganhamos um espaço que era cativo da direita e da ultradireita. Só que com ética e respeito. E contamos com a calhordice e a costumeira má-fé deles, que sempre têm a mentira como método. O vídeo falso do Nikolas sobre o Nordeste desempenhou o papel de Zambelli nesta campanha. Causou a indignação do povo nordestino e nos rendeu um caminhão de votos.
A diferença de mais de 4 milhões de votos foi massacrante, especialmente considerando que foi de virada. Foram 64.256.232 votos para o Lula. Mas é preciso ter a consciência de que precisamos manter esse movimento nacional e democrático. O Congresso Nacional está dominado pela direita e pela ultradireita. A sorte nossa é que, no sistema presidencialista, o Presidente da República tem muita força e o Lula, no quarto mandato, saberá exercer seu fascínio e sua liderança. E, como sabemos todos, boa parte dos congressistas de direita já está louca para mudar de lado e se ajeitar.
Foi uma eleição que mandou um sinal para o mundo todo, que estava de olho no Brasil. E nós demos um exemplo a todos os países. Foi uma vitória que devolveu a esperança na Democracia. E cada um de nós teve sua parte e merece comemorar.
Lembrando-nos de John Donne, poeta e clérigo inglês do século XVII:
“Nenhum homem é uma ilha isolada; (…) E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
