CRUZEIRO CAMPEÃO, PAIXÃO PELO FUTEBOL E O JOGO DA PAZ

Se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia.”

Leon Tolstói

 

O governo Lula tinha acabado de tomar posse pela primeira vez e Brasília fervia com as movimentações naturais de quem precisa estar perto do poder. Quem conhece um pouco da vida política sabe bem como funciona esse jogo. Eu era, à época, advogado da CBF e também do seu presidente, Ricardo Teixeira. A CBF é uma potência em vários aspectos. O futebol move muito dinheiro, poder e vaidade. Advogo há muitos anos na área e sei um pouco dessa força.

 

Ricardo Teixeira me pediu para apresentar o então ministro José Dirceu e o Presidente Lula. Uma aproximação absolutamente republicana e natural. Fiz um jantar em casa com Zé Dirceu e Teixeira e, nessa conversa a três, surgiu a incrível ideia do Jogo da Paz no Haiti, que passava por momentos dificílimos. Ricardo topou o jogo da Seleção Brasileira contra a do Haiti, que aconteceu no pequeno estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe. Todos os jogadores abraçaram a causa e toparam participar. A partida se deu em 18 de agosto de 2004 e o Brasil, então campeão mundial, venceu de 6 a 0. Foi o jogo mais emocionante que já presenciei.

 

O cuidado com a segurança era tal que os 2 aviões, o da Seleção Brasileira e o do Presidente Lula, tiveram que aterrissar e passar a noite anterior ao jogo na República Dominicana, por falta de estrutura no Haiti. Dormimos em Santo Domingo e só chegamos ao Haiti na hora do jogo. O transporte do aeroporto para o estádio foi feito em tanques urutus e caminhões da ONU. A preleção que o Presidente Lula fez no pequeno vestiário para agradecer aos jogadores brasileiros foi muito emocionante.

 

Conto essa história para ressaltar a magia do futebol. Os campeonatos mundo afora se agigantaram. Os valores envolvidos passaram a ser estratosféricos, e os grandes clubes, muitas vezes, colocam a questão financeira em primeiro lugar. Por isso mesmo, os torneios estaduais perderam força. Há quem sustente a necessidade de encerrá-los, até por causa do enorme número de jogos que ocorrem ao longo do ano no Brasil. O que, evidentemente, sobrecarrega os times e os jogadores.

 

Porém, penso que a rivalidade entre os clubes nos estados fomenta a torcida e empresta um charme único ao futebol. Socorro-me do grande Fernando Pessoa, ao escrever sobre “o rio da minha aldeia”: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.

 

No último final de semana, o meu Cruzeiro venceu o Campeonato Mineiro contra o Atlético, com o Mineirão lotado. Eu estava lá, emocionado e feliz. Não há competição, por maior que seja, por mais dinheiro envolvido, que supere a magia da rivalidade no futebol. Só quem é apaixonado por um time consegue entender. É poesia pura vibrar com um gol contra o seu principal rival. Penso que faz bem para o esporte. O futebol no Brasil é um fator de identidade nacional. Mas ninguém é, essencialmente, torcedor da Seleção Brasileira. Nossa paixão é, em regra, voltada a um clube. E é necessário alimentar essa paixão.

 

Lembrando-nos do compositor, poeta e bom jogador Chico Buarque na canção O Futebol:

 

Para estufar esse filó

Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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