A ULTRADIREITA RASGOU A FANTASIA!

“Quando o fascismo voltar, ele não dirá ‘eu sou o fascismo!’. Ele dirá ‘eu sou a
liberdade!’.”
Umberto Eco

Em meio a toda crise mundial, com um xerife americano ameaçando o mundo, desses
de filme barato, mas com o poder bélico de ser o Presidente dos EUA, o incrível grupo
organizador, especialmente Carol Proner e Prudente, há longos 16 anos, do Seminário
na Universidade de Pablo de Olavide, em Sevilha, na Espanha, tem como um dos temas
neste ano: “Nuevo desorden global y el fin de les acuerdos internacionales”.

Parecia até uma premonição do que está acontecendo. Tenho sido convidado para falar
aqui em Sevilha nos últimos anos e resolvi apresentar algumas provocações para
reflexão.

No mesmo dia do debate na Espanha, o Presidente Trump leva a Davos a atrevida e
descabida proposta de um Conselho da Paz em que ele seria o presidente permanente.
Convida 60 países e tem a coragem hipócrita de afirmar que o objetivo é a reconstrução
de Gaza. E que, depois, o Conselho perduraria para resolver outros conflitos. Uma
tentativa infantil de enfraquecer a ONU e, mais uma vez, de assumir o protagonismo
nas questões internacionais com interesses financeiros. O Brasil tem que se dar ao
respeito e não apoiar essa proposta fascista e perigosa.

Alertei, no início da minha fala, lembrando Umberto Eco, que: “Quando o fascismo voltar,
ele não dirá ‘eu sou o fascismo!’. Ele dirá ‘eu sou a liberdade!’.” E é este um dos grandes
dramas que vivemos hoje: o Presidente Trump, com a obtusidade e a prepotência que
o caracterizam, fala em nome da liberdade. Vai além, diz que ele e os EUA, que ele
carrega nas costas, são os únicos capazes de salvar o mundo e de alcançar a paz
mundial. Algo bizarro e teratológico, mas assustador vindo de quem vem. Não estamos
diante de uma bravata de um chefe de gangue canhestra do interior de Minas Gerais,
quando eu era menino. Estamos tratando com o Presidente dos Estados Unidos da
América. Um país em franca decadência, mas ainda uma potência perigosa.

Uma das provocações que fiz na palestra em Sevilha e que, de certa maneira, já havia
questionado no Brasil é por que o Trump estaria assumindo tão de peito aberto essa
postura belicista? De usar a força e a guerra aberta, sendo que ele, até então, embora
fascista, não fosse um senhor das guerras. Muitas são as hipóteses, algumas delas
cumulativas.

A debacle da hegemonia americana é uma questão a ser levada em consideração. Com
os EUA perdendo força e poder, o americano vai enlouquecer. E o Trump, claro, quer
ocupar esse espaço fazendo o que o americano médio mais gosta: mostrar exatamente
poder e força. Temos que considerar que a maioria dos norte-americanos é inculta,
banal e conservadora. A melhor maneira de chegar a eles, em um momento de grave
crise interna, é arrotar poder. Mostrar que os EUA ainda são os donos do mundo. Pouco
importa que não seja verdade; eles, os norte-americanos médios, vão acreditar. É um
povo sem informação sobre o exterior. Vivem o próprio umbigo. Triste.

Claro que existem outras hipóteses para a empreitada dominadora de Trump. Inclusive,
a estratégia de fugir de um possível pedido de impeachment decorrente do escândalo
da pedofilia. O caso Epstein Files ainda assombra muita gente pelo mundo. E, segundo
os jornais mais importantes americanos, o pederasta Jeffrey Epstein ainda vai dar o que
falar, mesmo depois de tanto tempo morto. Mas o que interessa, na realidade, é o que
o Trump está fazendo com o mundo, na sua versão autoritária, imperialista, fascista e
sem qualquer pudor. Sem compromisso com qualquer parâmetro de convivência entre
os países.

Penso ser importante prestar atenção à fala do primeiro-ministro canadense, Mark
Carney, em Davos, ao reconhecer que a ordem internacional baseada em regras está,
na prática, morta e que todos sempre souberam disso, mas aceitavam porque era
conveniente. E ele ainda pediu que os líderes mundiais e as empresas começassem a
chamar “a realidade pelo nome”.

Chamou a minha atenção essa fala, pois o discurso do fascista Trump tem uma única
coisa inovadora: ele assume que vai invadir outros países. E invade. Sustenta que os
EUA podem usar a força para tudo, do legítimo ao criminoso. Tirou a máscara da
hipocrisia. Reconheceu que tudo é pelo poder e pela economia. É o novo jogo sendo
jogado, não só nos EUA, mas também com os Trumps tupiniquins. Por aqui também as
fantasias têm sido rasgadas. É a Democracia sob ataque global. Resta a nós resistir.
Lembrando-nos do velho democrata Ulysses Guimarães, no discurso histórico de 5 de
outubro de 1988, quando promulgou a Constituição Cidadã: “Temos ódio e nojo à
ditadura”.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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