SUPER BOWL: A ARTE RESISTE. E SALVA! LIBERTA!

Se procurar bem você acaba encontrando.

Não a explicação (duvidosa) da vida,

Mas a poesia (inexplicável) da vida.”

Carlos Drummond de Andrade, Lembrete

 

Eu nunca gostei de futebol americano. Para ser sincero, não consigo sequer entender o esporte. Acho um jogo feio, bruto e sem técnica, salvo quando o quarterback lança a bola, às vezes, de maneira surpreendente.  Na verdade, quando passo na frente da televisão e vejo aquela quantidade de homens amontoados, engalfinhando-se e trocando supetões, eu imagino que realmente esse é o jogo feito para a sociedade norte-americana. Parece ser mesmo a representação do povo dos EUA. Sei que é uma falha minha, um fervoroso amante dos esportes, especialmente do velho e bom futebol. Embora possa parecer incompreensível posicionar 11 pessoas de um lado e 11 do outro para tentar, usando os pés, colocar uma bola em um gol de 7,32 m de largura por 2,44 m de altura, um bom jogo parece uma arte, quase um balé, um deslizar de emoções e sonhos.

 

Mas a força do esporte norte-americano impressiona. A final de 2026 foi assistida por cerca de 175 milhões de pessoas ao redor do mundo. Dizem ser o segundo evento mais acompanhado, atrás apenas da final da Copa do Mundo. Neste ano, o Super Bowl teve uma atração especial, em razão do momento difícil pelo qual passa a sociedade dos EUA. No famoso show do intervalo, os organizadores tiveram a coragem de colocar o porto-riquenho Bad Bunny para cantar. Foi o primeiro artista a fazer uma apresentação exclusivamente em espanhol. Algo muito significativo. Uma exaltação corajosa e linda da cultura latina. Foi um espetáculo emocionante e surpreendente. Um grito à resistência. Uma homenagem à liberdade. Um chamado à união dos povos.

 

Um governo fascista adotou uma perseguição criminosa contra quem não é norte-americano e a polícia que caça imigrantes tem agido com enorme virulência e agressividade. Ser latino, hoje, especialmente nos EUA, é crime sob a ótica nazista do governo Trump. As pessoas têm medo de sair às ruas, de frequentar cultos e shows. Bad Bunny falou, cantou e dançou em nome de todas as pessoas que querem um mundo sem preconceito, perseguição e tortura. Um mundo livre.

 

O espetáculo tratou de pertencimento, território, liberdade, identidade e multiplicidade étnica. Ele fez questão de citar, um a um, todos os países das Américas em uma bofetada aos trumpistas. Em determinado momento, Bad Bunny segurou uma bola de futebol americano na qual se lia: “Together, we are America” (Juntos, somos América).

 

A manifestação do Presidente Trump, classificando o evento como “terrível” e afirmando que cantar em espanhol naquele momento era uma “afronta” aos EUA, deixa claro que a mensagem ao mundo foi dada e compreendida. É um recado claro, por meio da arte, da música, da dança e da poesia. Tanto que o artista Bad Bunny avisou: “As pessoas só precisam se preocupar em dançar. Elas nem precisam aprender espanhol. É melhor que aprendam a dançar. Não existe dança melhor do que aquela que vem do coração”.

 

É o que parece faltar aos fascistas dos EUA: coração, amor e leveza. E a arte é o que pode ensinar tudo isso.

 

Lembrando-nos de Mário Quintana:

 

Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo,

para que possas profundamente respirar.

 

Quem faz um poema salva um afogado.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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