A BÊNÇÃO, MÃE!

A gente não gostava de explicar as imagens porque explicar afasta as falas da imaginação.”

Manoel de Barros, Menino do Mato

 

Eu era criança quando minha família quebrou. Saímos de uma casa enorme na principal avenida da cidade e passamos para uma casinha na periferia. Toda a casa nova caberia em uma das salas da antiga. Eu me lembro da mamãe explicando aos filhos que um dos motivos da mudança era ficarmos mais juntos. Antes, cada um dos 5 irmãos tinha um quarto; na casa nova, dividiríamos um quarto e ficaríamos juntinhos. Foi assim que mamãe fez, com muito carinho e inteligência, para que a família enfrentasse os novos tempos.

 

E deu super certo. Nenhum dos filhos se abalou com a nova situação financeira. Continuamos super unidos e passando as férias na roça, onde a falta de luz elétrica aguçava nossa imaginação e as estrelas eram companheiras lúdicas na escuridão. Brincar de fazer sombras à luz de velas era muito mais criativo do que correr atrás de filmes na Netflix.

 

Passado tanto tempo, ainda tento ter conversas doces, profundas, amorosas e densas com minha mãezinha, aos 97 anos. Em boa parte delas, ela só me olha profundamente, às vezes sorrindo, mesmo que apenas com os olhos; em outras, dispersa. Mas eu avanço nos assuntos.

 

Ainda agora, falei alto lembrando o aniversário dela, de 85 anos, em Paris, quando fomos com a família comemorar. Uma extravagância extraordinária que nos acompanhará amorosamente a vida toda. Relembrei cada celebração. Nós, os filhos, noras, genros e netos, brincando de caçadores, de artistas, de cantores e, enfim, sendo felizes.  Fazendo um piquenique no Jardim de Luxemburgo, brincando ao ar livre da velha brincadeira de adivinhar o nome do filme por meio de mímica.

 

Depois falei livremente sobre Paris: andar na rua com ela, tomar sorvete no Berthillon, na Île de la Cité, e sentar no Café de Flore para vermos juntos a vida passar pelo Boulevard Saint-Germain. Os olhos que sorriem sempre, acompanhando o sorriso da boca e as rugas óbvias do rosto. Tudo o que parecia fácil está se tornando impossível.

Não conseguimos decifrar os olhares que amamos tanto. Como respeitar, entender e acatar os não-olhares? Quem sabe qual o rumo do olhar que não conseguimos definir? Como estipular o nosso lado se, às vezes, não conseguimos entender nada a não ser a certeza do amor?

 

A leveza que existia é, hoje, só perplexidade e certo susto. Imenso susto e indomável medo de ela estar indo embora. Prefiro mil vezes o olhar distante e o sorriso lindo perdido ao medo da ausência. Quando eu olho nos olhos dela e conto histórias antigas, vividas por todos, sei que fomos muito felizes. E aí entro nos olhos dela, no sorriso doce, e sou só feliz de novo. E me remeto a Helena Kolody:

 

Quem é essa

Que me olha

De tão longe

Com olhos que foram meus.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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