SOBERANIA COMO MOEDA DE TROCA
“Não se meta nas eleições do Brasil.”
Lula respondendo ao Trump
Com o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar humanitária temporária — cumprindo pena definitiva de 27 anos e 6 meses, transitada em julgado —, o país acompanhou o julgamento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, cassado, que resultou em condenação de 4 anos e 2 meses de cadeia. Por sua vez, o filho que se apresenta como candidato à Presidência da República está cada vez mais enrolado em graves questões criminais. A tendência é que logo também esteja condenado ao cárcere. Ressalte-se que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro só não está cumprindo pena por estar foragido.
Ou seja, é literalmente uma família dedicada ao crime e que, infelizmente, corrompeu, no sentido mais literal, a política. A política brasileira tem uma longa tradição de divergências de posicionamento ideológico, como é a regra no mundo todo, mas é o que, na essência, preserva a Democracia. A velha dicotomia entre UDN e PSD e, mesmo na Ditadura, o embate entre MDB e ARENA não chegava ao extremismo da ultradireita de hoje.
Por isso, acostumamo-nos a conviver, em harmonia, com disputas entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, Serra e Dilma, Dilma e Aécio Neves, Lula e Alckmin e tantos outros. Atores políticos de diferentes espectros, mas que honravam a tradição democrática e respeitavam a Constituição. Com a alternância, o Brasil só revigorava a sua base democrática. Ainda que alguns governos conservadores atrasassem as conquistas sociais, havia respeito às tradições democráticas. E o país se consolidava com esse jogo.
A família Bolsonaro veio para mudar esse padrão. A política foi renegada para um campo inferior. Entraram em jogo a milícia, o uso ostensivo de fake news, os métodos violentos de ataque à Democracia — que culminaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro —, a corrupção desenfreada e a ofensiva frontal às relações democráticas e políticas. A postura de se afirmar contra a política é uma tática comum da ultradireita mundial. Fazem política para os incautos afirmando que não são políticos. São mestres na arte de iludir e enganar. Como não têm critérios éticos, é extremamente difícil enfrentá-los devido à falta absoluta de limites.
É preciso que nós, democratas, enfrentemos esse conflito dentro dos limites constitucionais. Neste momento, o Brasil acompanha, perplexo, um fenômeno em que o grupo bolsonarista de extrema direita se propõe a entregar a soberania brasileira ao governo Trump em troca de um salvo-conduto para a família não ser presa. É algo abjeto, mas encontra algum respaldo em parte da podre elite nacional. É mais do que entregar as terras raras, o petróleo e as riquezas brasileiras. É entregar a soberania. É abrir mão do Brasil. É uma ousadia nunca vista. Esse grupo, de quatro e com uma humilhante subserviência, dispõe a aceitar que o país vire um apêndice dos EUA.
A sorte do país é ter na Presidência, neste momento, um político com a estatura de estadista como o Presidente Lula. Por isso, ecoou no mundo inteiro, entre os democratas, a posição do Presidente brasileiro ao final da cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França. Lula foi claro e direto em seu recado a Trump, que, levianamente, havia dito que “o Brasil era politicamente perigoso”: “Não se meta nas eleições do Brasil”. E arrematou: “Só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania”.
A postura firme do Presidente Lula merece o apoio incondicional da direita e da esquerda. Não se trata de ideologia. É uma questão de honra e de respeito aos princípios básicos da Democracia. O problema é que o Lula fala em “código de ética” e esse é um termo que não existe no mundo sórdido e sujo da extrema direita.
Resta dar uma resposta nas urnas em outubro. Vamos varrer os fascistas da política. A parte mais ostensiva de apoio à Democracia é o respeito à Constituição. A PGR e o Supremo já estão fazendo isso ao condenar e mandar para a cadeia parte dessa cúpula criminosa. Porém, como são muitos e têm enorme capilaridade, o que tem que prevalecer é a velha e boa política.
Vamos derrotá-los dentro do jogo democrático. Em nome da Constituição e em respeito à soberania nacional. Em última análise: em homenagem ao povo brasileiro.
Remeto-me a Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
