PESQUISA: QUEM TEM ORGULHO DA PRÓPRIA IGNORÂNCIA

Se você entrevistar três pessoas no bar, 100% da população estará bêbada.”

De alguém que não acredita nas pesquisas

 

Anos atrás, sentado à frente da televisão, escutei a chamada do Jornal Nacional com uma notícia que não refletia a realidade de uma decisão processual importante na qual eu era o advogado do caso. Imediatamente, liguei para a jornalista com quem havia conversado e disse-lhe que o JN cometeria um erro. O tempo era curto. A repórter conseguiu, pelo que me explicou, passar a matéria para outro bloco, conversou criteriosamente comigo, mudou o rumo da prosa e a chamada da matéria já veio correta, e o texto foi fiel ao que tinha acontecido. Sempre acreditei que a imprensa é fundamental em um Estado de direito democrático. Em todas as dimensões.

 

É até angustiante ver hoje a importância das pesquisas na vida de muita gente. As pessoas recorrem a elas para decidir desde questões simples até as mais fundamentais da vida. Outro dia li uma pesquisa sobre quem era feliz. Ou seja, você vai ver tal resultado para saber se é ou não feliz?! Provavelmente essa pessoa é mesmo infeliz.

 

E os resultados influenciam até os rumos do país. Estamos próximos às eleições e o noticiário concentra sua energia nos resultados de pesquisas, deixando de lado, em boa parte, os programas de governo e as propostas dos candidatos. É claro que a definição da pauta se orienta por enquetes que indicam que o telespectador quer acompanhar os resultados. E aí somos obrigados a acompanhar, no dia a dia, algumas que, evidentemente, por refletirem apenas o recorte do momento, não possuem nenhuma pertinência com a realidade futura. Mas que impressionam. Influenciam.

 

É sabido que existe um grande grupo, como dizem as pesquisas — olha eu aí lendo as pesquisas — que não gosta de perder nas eleições e vota em quem se apresenta melhor exatamente nos questionários. E também sabemos, é claro, que, em cima da hora, no momento bem próximo às eleições, alguns institutos podem “arrumar” os prognósticos e aproximá-los do que deverá ser o resultado.

 

Agora há uma tendência de rotular o eleitorado como de esquerda ou de direita em pesquisas que não definem exatamente o que significa ser de esquerda ou de direita. O Datafolha fez uma sobre o tema não com uma pergunta direta, mas com um critério interessante sobre uma série de questões envolvendo valores sociais, políticos, culturais e econômicos. O resultado de 3 de julho foi: 15% se dizem de direita; 29% de centro-direita; 17% de centro; 26% de centro-esquerda e 13% de esquerda.

 

O que não consta nas enquetes é onde estão os eleitores de extrema direita. Ao que parece, os de extrema esquerda cabem em um ônibus, assim como os torcedores do América Mineiro. Porém, os de extrema direita dominam amplamente o cenário não só no Brasil, mas também no mundo. É só prestar atenção: Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil, Javier Milei na Argentina, Giorgia Meloni na Itália, Viktor Orbán na Hungria, Marine Le Pen na França, dentre outros.

 

Por isso, a saudade dos nossos centro-direitas que jogavam o jogo civilizado, dentro das balizas democráticas. Poderíamos revirar nas cadeiras com as eleições de Fernando Henrique, Marco Maciel, Aécio, Marconi, Sarney e tantos outros, mas tínhamos a segurança de que o Estado democrático de direito estava garantido.

 

Hoje, quando a gente vê um Milei dançando freneticamente na Convenção do PL, na frente do candidato filho do presidiário, a tendência é dar razão à escritora inglesa, Mary Shelley, nascida em 1797, Londres, e que dentre outros romances escreveu Frankenstein, e que profetizou:

 

Para ser de esquerda é preciso ler e pensar muito. Para ser de direita você só precisa ter orgulho da sua própria ignorância”.

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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