PRISÃO FAMILIAR
“O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”
Clarice Lispector
A busca e apreensão que se deu na casa do presidiário Bolsonaro, para verificar se há ou não armas, ilegais ou legais, onde cumpre uma generosa prisão domiciliar humanitária, demonstra a bizarrice dessa medida. Neste momento, o Brasil tem 2 ex-presidentes da República em prisão domiciliar. E o Bolsonaro, que já tentou fugir, violando a tornozeleira eletrônica, continua dando trabalho e buscando a mídia, participando, de certa forma, do momento pré-eleitoral. Nada do que esse condenado faz é por acaso. Tudo visa alimentar o gado que o segue.
O bolsonarismo é uma chaga. Está completamente fora de qualquer análise racional. Por isso, seus seguidores defendem teses que qualquer pessoa em um estado mínimo de normalidade deveria renegar. A última cartada é pregar que as mulheres não deveriam votar. Ainda assim, um número enorme de mulheres continua a apoiar esse grupo insano. Ao afirmar que tinha que ter arma em casa, mesmo estando em prisão domiciliar, porque tinham 3 mulheres na residência, ele não esbofeteou só as mulheres, mas brincou com o Poder Judiciário.
Podem ter certeza de que tudo é pensado, inclusive as ações, a princípio, teratológicas. O que se busca é vitimizar um prisioneiro condenado a 27 anos e 6 meses por crimes gravíssimos contra a estabilidade democrática. A ousadia de tentar romper a tornozeleira eletrônica, de maneira acintosa, demonstrou claramente que tais ações são todas pensadas sob o prisma eleitoral.
Para um bando de seguidores acéfalos, o que interessa é o líder demonstrar que está resistindo ao que chama de “perseguição política”. Como se trata de um grupo voltado para cultuar atitudes escatológicas, muito além de teratológicas, não se pode analisar essas ações pelo prisma de quem faz política, preservando-se e orientando-se por motivos democráticos e lógicos. Não.
Eles investem contra a Democracia, adoram pneus, marcham como idiotas tendo a ousadia de pedir intervenção militar no país, bradam por um ataque norte-americano no Brasil, apoiam medidas contra autoridades brasileiras e contra a economia do país. Oferecem a soberania nacional aos EUA numa subserviência tosca e nojenta. Cometem crimes ao vivo e em cores. Tudo em nome de uma família que nunca fez nada de positivo, mas que sabe que, em pouco tempo, estarão todos presos. Apegam-se ao Trump de forma humilhante. Não têm a menor noção do ridículo e, é incrível, ainda possuem uma legião de seguidores fanáticos. Uma seita. Sem limites éticos, falam em nome de Deus, da família e do tal homem de bem.
Com a proximidade das eleições e o natural desespero de quem sabe que pode perder no primeiro turno, a tendência é que esse grupo recrudesça. É hora de muita responsabilidade por parte dos democratas. O gesto do candidato Flávio Bolsonaro de pedir o adiamento das sanções ao Brasil para depois das eleições, para não fortalecer a candidatura do Lula, demonstra o grau de insanidade dos bolsonaristas. Não têm nenhum limite. E, com a derrota se aproximando, o desespero se fecha.
Uma semana depois das eleições, a prisão domiciliar perderá seu sentido e os processos contra os demais membros da família Bolsonaro voltarão a ter curso normal. Com a saída do Trump do poder nos EUA, os foragidos deixarão de ter guarida no país. Precisamos estar atentos. O cerco se fecha e esse grupo está cada vez mais sem ar. A agonia é péssima conselheira. E eles terão cada vez mais gestos extremos. Já se pode cogitar, até para dar uma válvula de escape, uma prisão familiar em vez de domiciliar. Todos na Papuda é uma hipótese que contém um forte simbolismo e, por que não, uma boa dose de humanidade. Uma família, enfim, unida.
Lembrando-nos de Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego:
“O pasmo que me causa a minha capacidade para a angústia.
Não sendo de natureza um metafísico, tenho dias de angústia aguda, física mesmo, com a indecisão dos problemas metafísicos e religiosos.
Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
