VOCÊ JÁ ENTROU COM O DEFUNTO!

“O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do cotidiano, tudo isto contribui para esta perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses.”

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

 

Quando eu morava no interior de Minas Gerais, a cidade era pequena e praticamente não havia nada para fazer à noite. Os poucos bares e restaurantes fechavam cedo. Um programa imperdível era o enterro de alguém cujos parentes poderiam oferecer uma boa despedida. Eu tinha um tio que era um boêmio inveterado. De família conhecida, não perdia a oportunidade de um bom velório. À época, as pessoas eram veladas em casa e as cerimônias, muitas vezes, viravam boas confraternizações.

 

Certa vez, em uma noite fria e chuvosa, esse tio soube de um velório em uma casa mais afastada, na periferia. Não conhecia o falecido, mas arriscou-se a buscar companhia para uma pinga e um biscoito cascudo. Quando chegou e entrou na sala, a viúva se emocionou e agradeceu pela presença. O velório era um fracasso: alguns gatos pingados e nenhuma bebida nem comida. Meu tio contava que ficou sem graça de sair e que resolveu organizar o velório. Levantou-se e pediu às pessoas presentes que fizessem uma vaquinha para comprar pinga, cerveja e algo para comer. Todos, prestativos, ofereceram algum dinheiro para ele ir comprar. A viúva se sensibilizou e logo se ofereceu para contribuir. Meu tio agradeceu: “A senhora já entrou com o defunto”.

 

Conto essa história para refletir sobre como as pessoas precisam se adaptar, ao longo da vida, às situações mais estranhas. Desde as questões triviais até as mais intrincadas e complexas. O Brasil passa por um momento de extrema singularidade. Depois de perder o primeiro turno para um desqualificado de extrema direita, o país acordou e fez um movimento a favor da Democracia e contra o fascismo miliciano que reverberou no mundo todo.

 

Nos 21 dias entre o primeiro e o segundo turno, vivemos um momento único, emocionante e revelador. Os jovens foram espontaneamente às ruas e também assumiram as redes sociais, antes dominadas pela extrema direita. Milhões de pessoas nas ruas com a esperança, o medo e a indignação necessários. Saímos de um silêncio cúmplice para um barulho ensurdecedor. E o movimento extrapolou o Brasil. O L de Lula virou um símbolo de resistência e liberdade. Com a juventude ditando as expectativas, a terceira idade acordou. Lembrou-se da Ditadura e dos abusos. Recordou que um dia foram jovens sonhadores. E resolveram sonhar de novo.

 

Com a vitória da civilização, os bolsonaristas, de extrema direita, sem nenhum preparo para a convivência democrática, em regra, indigentes intelectuais, revoltaram-se. Como sempre tiveram o ódio e a violência como método, recrudesceram. Começaram a agredir pessoas sem nenhum motivo, senão o extravasamento do preconceito e de uma raiva indefinida. Raiva da felicidade dos outros, das músicas alegres, das pessoas em longas passeatas, da alegria e da felicidade incontida. Pessoas felizes, beijando, cantando e dançando.

 

E esses idiotas ainda eram massacrados com reportagens de vários países mundo afora reconhecendo a grandeza do Lula e o significado da nossa vitória para o fortalecimento das democracias. A exaltação da dimensão, pelos países livres, da vitória da civilização contra a barbárie foi algo que contrariou e revoltou os fascistas, enlouquecidos com o barulho da nossa grande vitória.

 

E os movimentos mais tresloucados ganharam força. Ataques a pessoas sem motivo algum, exceto a violência bolsonarista. Demissões de funcionários que votaram no Lula. Listas, pelo Brasil afora, com nomes de pessoas e empresas que deveriam ser evitadas, expulsas de certos círculos, perseguidas, com proibição de compras ou mesmo de contato. Uma verdadeira caça às bruxas. Um espetáculo deprimente, nojento. O Brasil jogado em um abismo.

 

E, para enlouquecer ainda mais os extremistas de direita, tiveram que ouvir, da nossa parte, um discurso de pacificação. Vencedores pregando que é hora de o Brasil encontrar paz com todos os brasileiros, afastando e isolando a mediocridade violenta da extrema direita bolsonarista. A própria direita, que fez maioria no Congresso, já está se achegando. Não quer o extremismo violento desses incultos e vulgares.

 

A fuga covarde e milionária do miliciano envergonhou até mesmo a direita civilizada. Se a extrema direita tivesse ganhado, a direita sem-vergonha vestiria roupa de saqueadores e se lambuzaria nas benesses do poder. Mas perderam, de maneira acachapante e sob os aplausos de todos os países civilizados. O mundo se rendeu em homenagens à nossa vitória. Por isso, essa direita está vestida de civilidade e é bem-vinda neste momento de pacificação.

 

É hora de cumprir a Constituição e conversar com maturidade sobre as reformas necessárias, inclusive as do Judiciário, sem revanchismo nem perseguição. Para tanto, é importante seguir os ritos democráticos. Os que foram condenados em um julgamento democrático devem ser recolhidos ao sistema penitenciário, que precisa ser reformado, pois hoje é desumano e medieval. O ex-presidente, hoje presidiário, deve cumprir pena na Papuda, sem privilégios, como deve acontecer em uma República. O miliciano que perdeu a eleição e fugiu do Brasil tem que ser processado, com todas as garantias de um processo penal democrático. Vai ser condenado e terá que cumprir pena, se condenado.

 

Os que estão foragidos nos EUA sob a proteção de um presidente decrépito, em um país em franca decadência, verão chegar a hora de acertarem contas com a Justiça brasileira. Inclusive o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que fugiu e está condenado com trânsito em julgado. E será extraditado ou deportado tão logo o governo dos EUA mudar.

 

É assim que se faz a pacificação: cumprindo-se as leis e a Constituição, sem perseguir ninguém, mas sem privilégios que deixam marcas, causam revolta e dão maus exemplos. O cidadão comum, se não vê a Justiça ser feita, sem privilégios, sente-se ultrajado. Acompanhar, pela televisão, um miliciano fugindo em um voo que custou R$ 1 milhão de aluguel revolta e atrapalha a necessária pacificação.

 

Se a extrema direita quiser agora sentar-se à mesa, oferecendo-se para participar do governo, os democratas têm o dever de não aceitar, ou não haverá hipótese de pacificação. Nessa hora, devemos nos lembrar do meu tio, lá de Patos de Minas, ao falar para a viúva, no velório: “Vocês já entraram com o defunto”.

 

E parte da sociedade age como se não fosse com ela, cúmplice. Deveriam ler Dante na Divina Comédia:

 

“Aquele que à inatividade se entregar

deixará de si sobre a terra memória igual

ao traço que o fumo risca no ar

e a espuma traça na onda.

 

No inferno os lugares mais quentes

são reservados aqueles que escolheram

a neutralidade em tempos de crise.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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