ELE É A CRISE

“Uns governam o mundo, outros são o mundo.”
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Uma das marcas da administração fascista é a desesperança em dias melhores.
Existem outras, claro, como a apatia, a solidão em público e o deserto de ideias. A falta
de um diálogo inteligente e instigante faz a mediocridade se sentir a dona da razão. E
no governo Bolsonaro, a mediocridade tem um espaço muito grande, disputa lugar com
a boçalidade e a obtusidade. A exitosa estratégia adotada para desestruturar todas as
conquistas humanistas das últimas décadas fez com que o país retrocedesse no tempo.
Mesmo na hipótese da derrota deles em outubro, o Brasil vai demorar anos para se
reencontrar.
O caos instalado causou rupturas que abalam qualquer hipótese civilizatória. Em todas
as áreas: na cultura, na educação, na saúde, na economia e na segurança. A nossa
autoestima foi reduzida a extrato de pó de mico. A imagem do Brasil no exterior, nos
organismos internacionais, é a pior possível. Em um país presidencialista, a pessoa do
Presidente da República tem uma força simbólica muito forte. E o nosso Presidente é
naturalmente ridículo. Viramos chacota mundial. Só nos resta o humor ácido de
Torquato Neto: “Solidão? sim, com gelo e limão. Ingratidão? não, obrigado.”
A fala da diplomata americana Elizabeth Bagley ao ser sabatinada no Senado
americano, após ser indicada embaixadora dos EUA no Brasil, é o retrato da
desimportância do governo brasileiro. Perguntada sobre a hipótese de golpe e sobre as
eleições brasileiras, a futura embaixadora foi cruel ao afirmar que, “apesar do
Bolsonaro”, o país teria eleições livres e dentro da normalidade democrática. Foi
vergonhoso, humilhante até. E esse é o retrato que vai sendo pincelado dia após dia
pela irresponsabilidade de um governo obtuso.
E o estranho é constatar que, ainda com essa crise cruel, com o desemprego de 15 %
da população ativa, com a fome e as pessoas morando nas ruas, com 36% dos
brasileiros em estado de insegurança alimentar – não sabem se vão comer algo no final
do dia -, os bolsonaristas seguem seguros de si. Parecem orgulhosos da ignorância que
os caracteriza. A empáfia faz com que não reflitam sobre o precipício no qual o país
caiu. E a proximidade do processo eleitoral vai desenhando um momento de perigosa
violência. Parece que vivem em mundo à parte, leves e felizes. Isso me faz lembrar do
imortal Luís Fernando Veríssimo: “Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente
livre, é a que não tem medo do ridículo”. No caso, eles não têm noção do ridículo.
Um Presidente que vive a tensionar as instituições, que provoca de maneira vulgar e
jocosa os Poderes constituídos e que ameaça com frequência o Poder Judiciário é, por
si só, uma crise. Ele é a crise e os seus seguidores se alimentam dessa instabilidade. É
um erro desprezar os ataques frequentes às autoridades, à Justiça Eleitoral e à
credibilidade das urnas nas futuras eleições. Há um certo pavor instalado no grupo
palaciano que sabe os riscos que corre com a derrota eleitoral. Risco real.
Não estamos falando de uma alternância de poder, saudável e normal nos governos
democráticos. Temos que assumir que o governo Bolsonaro não é democrático. Ainda
que tenhamos as instituições funcionando – o Congresso, o Judiciário e as entidades da
sociedade civil – é salutar ouvir a voz da embaixadora americana: tudo isso se dá apesar
do Presidente da República e dos seus seguidores mais próximos. Apenas com essa
certeza é que poderemos enfrentar o que se avizinha até o período da votação.
E volto a insistir sobre a importância das próximas eleições. Até lá, continuaremos a
conviver com a bestial e repulsiva postura agressiva do Presidente da República contra
o Judiciário, especialmente contra a Suprema Corte e contra o Tribunal Superior
Eleitoral. O que nos cabe assumir é que essa investida autoritária, quase doentia, não
é feita sem um critério. A mediocridade é a marca da tentativa de golpe, frustrada com
antecedência, felizmente, dada a obtusidade do Presidente e seus áulicos. Mas é bom
manter o alerta.
Quando se tenta tirar o ar que preserva viva a democracia, manter um ambiente de
ameaça e tensão contra os Poderes constituídos e construir muros para impedir a
chegada da luz, é porque o monstro do fascismo está se contorcendo para tentar sair
das trevas. Não é pouco o que esses bárbaros fazem com o Estado e com a sociedade
brasileira, mas, se dependesse dessa turba enlouquecida, já não haveria normalidade
democrática. Eles são o atraso e a falência institucional. Só não romperam os ritos ainda
mais porque encontraram a resistência de uma sociedade que aposta firmemente na
democracia e no Estado democrático de direito.
Repito aqui, com carinho e respeito: no dia 2 de outubro, o Brasil vai fazer seu teste
mais importante. Não vamos dar chance a essa serpente que usa suas múltiplas
cabeças e seu sibiloso e falso arrastar para dar o bote. A vítima dessa trama, mais do
que o cidadão, é a democracia.
Para impedir a hipótese de um golpe fajuto contra as eleições, sob o argumento
falacioso das urnas eletrônicas, vamos derrotar esse projeto autocrata no primeiro turno.
Não vamos dar chance a esse grupo que, mesmo sem prestígio, sem credibilidade e
sem respeito, tem a força que emana do cargo e do que representa o Presidente da
República no sistema presidencialista.
Lembrando-nos da grande Sophia de Mello Breyner Andresen, no poema 25 de Abril:
“Esta é a madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da
noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Publicado no Poder 360. 

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