O FRIO, A FOME E A RUA

 

“Pelo que esperam?

Que os surdos se deixem convencer

E que os insaciáveis

Devolvam-lhes algo?

Os lobos os alimentarão, em vez de devora-los!

Por amizade

Os tigres convidarão

A lhe arrancarem os dentes!

É por isso que esperam!”

Bertolt Brecht, Os Esperançosos

 

Há um enorme e congelante inverno dentro das pessoas. O frio que nos faz procurar um canto quente, um bom agasalho e uma bebida para superá-lo é o mesmo que humilha e impõe uma dor sem controle para os que estão sem teto e sem esperança. O Brasil perdeu para a miséria e, ao voltar para o mapa da fome da ONU, de onde tinha saído em 2012, jogou nas ruas milhares de brasileiros. Com a pandemia e o caos social, algo como 500 mil pessoas foram obrigadas a viver ao relento, abrigadas em sacos plásticos, barracas, prédios abandonados, buracos ou bueiros.

 

Difícil saber o número exato, porque é um contingente de invisíveis, de sem nomes, de sem endereço fixo e de histórias que foi se perdendo ao longo do caminho. E com o desemprego cada vez mais avassalador, o perfil do morador de rua também foi mudando. De acordo com o Movimento Nacional da População de Rua, o número de mulheres e crianças aumentou assustadoramente. São famílias inteiras que buscam “o conforto e a segurança” das marquises, dos túneis e dos viadutos, o que dificulta para fazer um censo decente e saber o tamanho do problema. Um diagnóstico amplo e honesto desse cenário ajudaria a entender a dimensão do buraco.

 

Junto com o flagelo da carestia, do crescimento negativo e do fechamento dos postos de trabalho, ainda vivemos a tragédia da pandemia do Covid 19. E hoje, trabalhadores se veem obrigados a enfrentar a crise social, a sanitária e a econômica morando nas ruas como única e última saída. A questão é humanitária e a solução é necessariamente política.

 

Com a posse do governo fascista do Presidente Bolsonaro, vários conselhos de representação popular foram desfeitos. A propaganda da não política, que foi usada como mote para eleger o atual grupo, é, na verdade, toda pautada na política de exclusão social, no enfraquecimento da sociedade e no esfacelamento dos movimentos de inclusão e aconchego. Remeto-me ao poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, na tradução de Fernando Pessoa:

 

Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!

Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”

Disse o corvo, “Nunca mais“.

 

O desespero de uma pessoa que vive nas ruas, com filhos pequenos, ao acordar e se sentir impotente, é avassalador. A escuridão da noite às vezes é melhor do que o sol, que parece expor a nu as mazelas e a falta de perspectiva. É como se a luz servisse para mostrar a miséria coletiva. A fila do osso passa a ser um privilégio e uma opção de subsistência. Até mesmo para se criar uma rede de resistência para aquele que se encontra em situação de rua e de miséria, a vida é cada vez menos vida.

 

Na voz de Carlos Drummond de Andrade, no poema Os Ombros Suportam o Mundo:

 

Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais do que a mão de uma criança.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

O governo não conhece verdadeiramente o perfil dos atuais moradores de rua. Desses que, ainda ontem, estavam empregados ou subempregados. Não consegue fazer uma diferença entre os antigos moradores e os que estão agora ocupando os espaços públicos. É difícil estabelecer uma política pública, coordenar as redes de assistência social e o SUS quando sequer se conhece o problema por dentro.

 

A impressão é que o governo Bolsonaro é a cara exata do Presidente: cego, ignorante e sem real preocupação com os desassistidos. Uma cruel e lancinante insensibilidade. Não há dor, não há frio e não há fome que consiga fazer com que esses grupos tenham alguma importância na definição de prioridades.

 

A situação de extrema vulnerabilidade só poderia ser enfrentada se, de alguma maneira, isso sensibilizasse o poder público. E o pior, quanto mais tempo o cidadão vive na rua, mais difícil se torna a sua reinserção na rede de assistência do setor público. Um problema leva ao outro. O descaso e a falta de um enfrentamento técnico da questão só agravam a realidade e tornam mais angustiante a vida dos moradores, sem perspectiva de sair da tragédia.

 

Em 1986, a ONU criou o Dia Mundial dos Sem-Teto (4 de outubro) para chamar a atenção aos inacreditáveis 800 milhões de pessoas sem moradia no mundo. O atual governo brasileiro parece fazer questão de se postar bem no macabro ranking da fome, da miséria e do abandono.

 

A destruição de todas as políticas públicas e a estratégia de desestruturar os setores mais diversos – a saúde, a ciência, a educação, a cultura, a segurança e a economia – fará com que o Brasil, mesmo afastando esse governo fascista pelo voto em outubro, tenha um longo e penoso caminho de recuperação. É tarde, mas ainda é tempo. Vamos fazer um trabalho de resgate do Brasil que foi tragado pelo obscurantismo.

 

Nós, privilegiados, ainda temos como esperar o tempo da reestruturação, mas, para milhões de brasileiros, o tempo já é um inimigo que mata aos poucos. De frio, de fome, de desespero, de desesperança e de tristeza. É bom que nos lembremos disso quando outubro chegar e, com a serenidade democrática que deve ser nossa companheira, a gente possa optar por abafar de vez esse projeto golpista e desumano.

 

Lembrando-nos da esperança equilibrista do grande Betinho, “Quem tem fome, tem pressa.

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Publicado no Poder 360.

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