QUERO MEU TEMPO DE VOLTA!
“Uso a palavra para compor meus silêncios.”
Manoel de Barros, poema O apanhador de desperdícios
Tenho saudades de um tempo em que, no final de ano, nós nos dedicávamos a fazer pequenos planos. Às vezes, românticos e pueris, porém, acalentavam nossos sonhos por dias melhores. Sempre intercalados com pitadas de realidade, mas era um sonho sonhado acordado. Nós nos permitíamos brincar com os sonhos e desejos e a realidade parecia mais leve. Até porque tínhamos tempo. É o tempo que nos permite viajar sem precisar sair do lugar. Era doce se entregar a um livro, a uma conversa deitado no chão, na grama, admirando, na escuridão da falta de energia elétrica, as estrelas. O silêncio era tão profundo e denso que parecia palpável. Um desastre que ocorria no outro lado do mundo demorava muito a chegar a notícia. A falta de informação refletia em uma sensação de segurança. Uma certa calma imperava e a gente parecia dono do nosso tempo. Eis a preciosidade que nos faz falta: ser dono do nosso tempo.
Hoje, há uma certa ânsia por notícia e algo que aconteceu ontem costuma ficar irremediavelmente velho, dada as sucessões frenéticas de novidades. Lembro-me do dia que uma amiga me contou que iria trabalhar em um canal de notícias 24 horas. Confesso que não acreditei. Às vezes, ligava a televisão, desavisadamente, de madrugada, só para verificar se realmente estava tendo alguma programação. E me assustava ao constatar que era verdade. E o ritmo frenético da vida foi substituindo uma deliciosa preguiça que ditava os passos. E ninguém tinha pejo de levar a vida com mais leveza, descontração e quase desinformação. Sem maiores cobranças, dos outros e de nós mesmos.
Existiam espaços quase sagrados. Ninguém interrompia a leitura de um livro; à mesa de comida não existia nem mesmo um rádio ligado. Televisão era impensável. E o telefone, de discar e pregado na parede, ficava sozinho na sala somente para ser usado quando indispensável. Se você ia ao cinema, tinha a certeza de que jamais seria incomodado, até porque ninguém o localizaria naquele mágico escurinho protetor. Quando acordávamos pela manhã, era mesmo só para acordar, ainda sonolentos e tranquilos. Não havia a necessidade de, antes ainda de levantar-se da cama, verificar no WhatsApp se o mundo continua nos eixos. Ou procurar se informar pelo computador qual o desastre, a operação policial ou o escândalo ocorridos enquanto dormíamos. Se o tempo era nossa grande conquista, hoje a informação ocupou esse espaço fundamental. A velocidade da informação – e, o pior, a necessidade quase doentia dela – nos sufoca e, de alguma maneira, nos dá certa angústia.
Os intermináveis grupos no WhatsApp, com pessoas falando e palpitando sobre tudo, às vezes com ideias disparatadas, causam-nos certos constrangimentos de tão desnecessários. Até sair dos grupos causa certo desconforto. É como se nós tivéssemos perdido o controle mínimo das nossas vidas e do nosso destino. Até porque, do destino ninguém tem mesmo controle. Mas ser colocado em um grupo com 256 participantes dos quais a esmagadora maioria você não tem ideia de quem seja, é de um constrangimento ensurdecedor.
Por isso, no Natal e nas festas de final de ano, vamos cuidar de nos dar tempo e de tentar não correr atrás de coisas desimportantes. Vamos nos permitir poetar, namorar e olhar as pessoas com um olhar de querer ver. E vamos sonhar em ser feliz em um país mais justo, igual e solidário.
Lembrando-nos, outra vez, de Manoel de Barros:
“Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino,
nem São Francisco de Assis – para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.
(Eu tenho doutorado em formigas.)”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
