Raiva libertadora, por Kakay

“Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
devolvam-lhes algo?
Os lobos os alimentarão,
em vez de devora-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!”
Bertolt Brecht

É interessante notar que, muitas vezes, passamos a vida inteira sem refletir sobre certas verdades ensimesmadas em nós mesmos. Sempre tive para mim que a indignação fazia parte da nossa mola propulsora para encarar as desigualdades, as iniquidades.

E sendo eu parte desta elite branca, homem, hétero, com milhões de oportunidades ao longo da vida, já me sentia bem em deixar a indignação guiar meus movimentos, minhas decisões e posicionamentos. Nunca se abaixar na hora do tapa, se expor, enfrentar, ousar até, sempre foram posturas que me deixavam confortável comigo mesmo. Mas sempre dentro de certos limites que esta sociedade amorfa, hipócrita forjou, sem eu mesmo notar.

Sempre cordial e aberto a escutar o outro lado com um olhar de ver. Como deve ser, dizem. Querendo compreender o sentimento do mundo e respeitar a opinião de todos. Um tal respeito que, vejo agora, beirava às vezes certa subserviência. Com uma infinita paciência cristã. Me recorro a Clarice Lispector:

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”.

Nos últimos tempos passei a prestar atenção a quem se expõe além dessa passividade indignada. A quem se permite tratar com desprezo ou mesmo rispidez aqueles que têm como norte o solene desrespeito aos direitos mais elementares. Um governo fascista e desumano aflorou em muita gente posturas inaceitáveis para uma vida em sociedade. Saíram do armário pessoas que se permitem agora serem mesquinhas, racistas, homofóbicas, enfim, um esgoto humano foi aberto à luz do dia. É preciso enfrentar esse bando de ensandecidos que saiu das trevas para assombrar.

E eu passei a admirar àqueles que se permitem ter a raiva como forma de resistência e de luta. Foi ouvindo e lendo a valorosa Sheila de Carvalho e a primeira vereadora trans negra de São Paulo, Erika Hilton, dentre tantos, que percebi a força transcendental da revolução que se pode implementar canalizando a raiva. Sabendo usar a raiva. Acumulando a raiva para armazenar força. Mas liberando-a na hora certa. Lendo a grande Sophia de Mello Breyner:

“A liberdade dos deuses que eu esperava
Quebrou-se.
As rosas que eu colhia,
transparentes no tempo luminoso,
morreram com o tempo
que as abria.”

Como não ter raiva com essas desigualdades que diariamente nos entorpecem e com os protocolos sociais a cumprir para pretensamente, falsamente, enfrentarmos essas desigualdades? Como não ter raiva da fome, do desemprego, da provocação machista, do escárnio dos que riem de quem não teve oportunidade? Como não ter raiva da falta de oportunidade real da grande maioria das negras e negros, dos analfabetos, dos homossexuais, trans e tantos outros tragados por uma ordem imposta por essa sociedade tacanha? Como não ter raiva de não poder ter raiva? De sermos adestrados para convivermos com a miséria, com a falsidade, com a mentira, com as desumanidades diárias que passam a fazer parte das nossas vidas? Com a empáfia desses que se sentem poderosos? Desses que arrotam uma meritocracia enquanto criticam as cotas, mas que na verdade assim agem para manter os privilégios?

Não necessariamente a indignação ou a raiva levam às rupturas indesejadas. É uma maneira digna de estar no mundo. Mas normalmente consideramos irracional quem assume ter raiva. Vejo hoje que deveria ser o contrário: assumir a raiva nos leva a dar um passo além da simples resistência, um passo na construção de uma nova visão do que é nosso espaço no mundo. Nosso lugar. Nosso caminho. A dignidade da pessoa humana, tenho dito, é a base de todo o nosso sistema jurídico, a base do direito penal, o arcabouço da Constituição da República. A dignidade tem que ser o alicerce que sustenta as relações entre as pessoas. E quem atenta contra a dignidade merece nossa raiva como catalisadora da repulsa cívica. Volto à Clarisse:

“A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa. Há dias que vivo da raiva de viver.”

Deveríamos ter vergonha da omissão, da passividade, do conformismo, não de ter raiva. O despertar para um respeito próprio, para uma inteireza interior, certamente passa por uma raiva ante as abissais diferenças no mundo. Como canalizar essa raiva vai fazer cada um de nós definir o papel de objeto ou de sujeito na história. Ou continuamos a aceitar placidamente os idiotas que se apoderaram da barbárie como meio de vida, ou nos posicionamos contra a truculência dos abusos. Como bem disse Sheila de Carvalho, que recebeu o prêmio de Pessoa Afrodescendente Mais Influente da ONU, “A raiva reprimida pode ser muito danosa. Eu resolvi expressar a minha raiva, transformá-la na força motriz das minhas ações”. Parece simples, mas requer postura, coragem, determinação.

A nossa maneira de estar no mundo nos define e a superação desta nuvem densa de opressão que nos envolve e nos domina é que determinará o nosso papel. Ou continuamos a seguir pacatamente, como simples espectadores dessa tragédia que se aprofunda, ou ousamos nos posicionar e sair da mesmice. Romper primeiro com nossos medos, enfrentar a nós mesmos, sem preocupação com o ridículo e fazer com que nossa voz saia do conformismo e se transforme em resistência e fator de transformação. É o que nos cabe. E assim nos abrigar em Pessoa no Livro do Desassossego:

“Reconheço hoje que falhei; só pasmo, às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores, ou a visão certa dos loucos…era lúcido e triste como um dia frio.”

Publicação Original: Poder 360

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