TOM JOBIM: CHOPE, CAIPIROSKA E A MILÍCIA NO RIO

“De manhã escureço.

De dia tardo.

De tarde anoiteço. De noite ardo.”

Vinícius de Moraes, Poética

 

 

O sonho de quase todo mineiro, ou de boa parte, é ser carioca. Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando recebi o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro na Câmara Municipal. Com orgulho, fui para aquela tribuna tantas vezes ocupada por Marielle Franco. Foi ali que me recordei do poeta mineiro Leão de Formosa, que cantou: “aperfeiçoa-te na arte de escutar, quem ouviu o rio pode ouvir o mar” e declamei que estava mergulhando no mar vindo direto das montanhas de Minas.

 

Demorei muito para conhecer o Rio. Era longe e caro. Lembro-me de quando estive lá pela primeira vez. Cheguei de ônibus e fui para um hotel super simples e com dinheiro de pinga. Perguntei ao porteiro: “onde encontro um carioca, de preferência famoso?”. Ele me indicou a churrascaria Plataforma. Lá fui eu, com dinheiro de um chope e muita cara de pau.

 

Era quinta-feira e a casa estava cheia. Avistei uma mesa com uma cadeira vazia ao lado de um bonitão de chapéu branco. Pedi licença. Licença concedida, sentei-me. Um chope e uma caipiroska. E tome caso. Histórias. De verdade e, claro, inventadas. Parecia que eu já era conhecido ali na roda. De repente, o bonitão de chapéu branco perguntou: “não bebe mais?”. Eu respondi, baixinho, que só tinha grana para o que eu já tinha bebido. Ele, generoso e alegre, chamou o garçom, com invejável intimidade – adoro quem é amigo de garçom -, e disse: “ele é meu convidado. Pode servir”. Quase três horas depois, umas 10 caipiroskas e 10 chopes, despedi-me. E ainda ouvi: “amanhã estaremos aqui!”.

 

Sexta-feira, às 21 horas, lá estava eu na cadeira reservada naquela mesa ao lado do moço de chapéu branco. Outras 10 caipiroskas com cerveja e milhares de histórias. Risadas. Gente feliz.

 

No sábado, casa lotada. Impossível entrar. Todo mundo sendo barrado quando escuto do segurança: “este garotão pode entrar, é amigo do Tom Jobim!”. Eu era o garotão. E, meu Deus, o moço de chapéu branco era o Tom Jobim! Eu, do interior de Minas, não o identifiquei, numa época sem TV e sem internet. Entrei, sentei e dobrei as doses, já que iria embora no outro dia. Já de madrugada, todos nós alegres, despedi-me e dei um singelo beijo nele. Falei baixinho: “obrigado, Tom, nunca vou esquecer”.

 

Hoje, vejo o Rio se desmilinguir. A milícia tomou conta do território até mais que o tráfico. Não há nada que se pareça com um programa de segurança. A família Bolsonaro fez daquele estado o seu banker. É do Rio que eles irão resistir às lufadas de ares democráticos. É verdade que existe o governador de São Paulo, do grupo de extrema direita. Mas ele come à mesa com garfo e faca. A gente reconhece que é um pouco mais qualificado que os bárbaros bolsonaristas.

 

Parece que os trogloditas sabem que o que lhes resta é o território da barbárie. Abertamente. Enfrentá-los e derrotá-los vai mostrar qual é o país que queremos. Afinal, o Rio de Janeiro é a cara do Brasil que nós queremos. Até em homenagem ao maestro Tom Jobim que um dia disse: “Morar em Nova York é bom, mas é uma merda; morar no Rio é uma merda, mas é bom”.

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

 

Confira o artigo publicado no IG no dia 18 de janeiro.

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