CANSEI DE MIM, MAS CONTINUO A LUTAR

“Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo – para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.”
Mário Quintana
Na semana passada, escrevi aqui um artigo com o título “CANSEI DE MIM”. Foi incrível
a quantidade de manifestações que recebi a respeito. Muitas, com uma cortante lucidez,
questionando, em razão das minhas críticas à elite brasileira, se existiria de fato elite no
Brasil. Ou se ainda não somos sequer uma sociedade na qual se possa identificar uma
elite. Várias mensagens, talvez impressionadas pelo título, conclamando a necessidade
de não desistir, pois o país precisa, mais do que nunca, de ações afirmativas de todos
nós. A maioria concordando com minha perplexidade pela mediocridade do momento
brasileiro, com a angústia da volta do país ao mapa da fome da ONU, do qual tínhamos
saído em 2012. E, claro, a quase totalidade dividindo comigo o constrangimento de
termos, ainda no meio deste caos obscurantista, 30% dos brasileiros apoiando o
governo fascista.
Penso que o tom de quase revolta e desabafo deu a sensação de um desânimo no meio
do desastre pelo qual passa o Brasil em todas as áreas: cultura, saúde, economia,
educação, segurança, tudo enfim. Mas, na verdade, o artigo é um libelo à resistência
que pretende fazer um Brasil feliz de novo, em vencer o atraso, em afago e em afeto.
Fala, na verdade, em conseguir aconchego no fundo do poço, em dar as mãos na beira
do precipício e em não deixar ninguém sozinho. Para tentar reagir aos bárbaros, no
entanto, é necessário revelar as atrocidades. Não há como enfrentar esses ratos que
saem diariamente do esgoto sem se expor ao cheiro putrefato da turba.
Ainda nesta semana, a exemplo do deputado bolsomorista que foi à Ucrânia fazer
turismo sexual, pois as ucranianas seriam “fáceis porque são pobres”, outro escândalo
ocorreu no seio do bolsonarismo raiz. Um vereador desse grupo, com 23 milhões de
seguidores e o terceiro mais votado – 60.326 votos no Rio de Janeiro -, foi filmado
aparentemente aliciando uma menor em troca de um sanduíche. O mesmo vereador
que é acusado de assédio moral e sexual por ex-funcionários. Tudo merece apuração,
claro.
Ao mesmo tempo, o ministro da Educação caiu por corrupção depois de o Presidente
afirmar que “botava a cara no fogo” pelo infeliz. Mas Bolsonaro não cumpriu a promessa,
pois, como a cara dele é de pau, teria virado cinzas. Por isso alertei para esquecermos
da ideia do brasileiro cordial. É necessário encarar de frente, e com vigor, esses
hipócritas e canalhas. É preciso nos lembrar do acinte de ter o ex-ministro Milton Ribeiro
autorizando a distribuição de bíblias com fotos dele. Não existem limites para esse
grupo!
Mas, na verdade, o que ficou das centenas de manifestações que recebi foi uma
sensação que nos domina: é chegada a hora de termos o Brasil de volta. Um país que
acolha a todos e que nos faça ter a certeza de que vale a pena lutar por um mundo
melhor. Das mensagens que me abraçaram e me deram a certeza de que vale a pena
continuar na luta, destaco a do meu grande amigo e líder, o professor Boaventura Sousa
Santos:
“Grande artigo. Brilhante. CANSEI DE MIM escrito por alguém que, desmentindo o título,
continua incansável a lutar por um Brasil mais feliz e digno.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Publicado no O Dia. 

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