ESQUARTEJAMENTO

Tenho sangrado demais

Tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri

Mas este ano eu não morro.

Belchior, Sujeito de Sorte, na voz de Emicida

 

Há um fosso profundo que separa cada vez mais boa parte dos brasileiros. Se, por um lado, a pobreza absoluta aumenta vertiginosamente – com um absurdo contingente de pessoas morando nas ruas sem uma condição mínima de dignidade -, por outro, e por incrível que possa parecer, cresce assustadoramente o número de pessoas que fomentam o ódio pelos sem-teto.

 

Os condomínios e os prédios dos mais abastados cercam-se de segurança contra o “perigo” iminente dos pobres. Para essa elite, o miserável tem cor e cheiro. E o cheiro da pobreza tem que ficar longe e fora das ilhas de segurança; hipocrisia e maldade. Essa separação acontece de maneira cruel, sórdida e direta. Enquanto tentamos lutar, na busca por um país mais igual e justo, os que dominam o jogo são cada vez mais representantes de verdadeiras milícias urbanas.

 

É necessário que nos atentemos para a tragédia das chacinas no Rio de Janeiro.

 

Chacina, antes de significar a barbárie institucionalizada – explicitada no ato de matar um número significativo de pessoas -, tem como origem etimológica o esquartejamento de porco. Ou seja, a triste comparação é inevitável: o início de tudo é essa visão primitiva, desumana e cruel de que o homem pobre e negro é um ser a ser abatido como porco na vida real. E não ousem se contrapor à ordem estabelecida, pois, caso contrário, serão esquartejados e seus membros salgados em praça pública.

 

Resistir já é motivação jurídica para essas “turbas ensandecidas” justificarem a barbárie. Ou, às vezes, nem é preciso isso, basta existir. É uma existência que incomoda e que provoca.

 

 

A crueldade da última chacina no Rio, na Vila Cruzeiro, evidencia a postura rigorosamente fascista que tem sido a regra do sistema de repressão do governo bolsonarista. É o segundo maior massacre em número de mortos – foram 25 pessoas -, perdendo apenas para a do Jacarezinho, com 28. Mas a lógica é a mesma: a ordem é executar. É a política do “tiro na cabeça”, do Witzel, e do “direito de matar”, do fascista do Moro.

 

Mesmo quem não concorda com os princípios da ala humanista tem a obrigação de se posicionar sobre essas execuções sumárias. Sob pena de cumplicidade nos óbitos dos brasileiros executados. Bolsonaro aplaudiu a morte que ele chamou de “bandidos, marginais”; e ainda criticou aqueles que são contrários a essa política de extermínio.

 

Ele deveria se poupar mais e ter mais cuidado. Em pouco tempo, após a vitória do Lula no primeiro turno, os verdadeiros marginais estarão, como estão, sentados à mesa com ele, respondendo pelos inúmeros crimes praticados ao longo dos últimos anos. Só que sem a proteção da Presidência da República. E aí, podem ter certeza, seremos nós, os defensores “idiotas” dos direitos humanos, que iremos garantir a eles o amplo direito de defesa e o devido respeito à Constituição – essa coerência pode ser chata, mas é ela que mantém o Estado democrático de direito.

 

Nessa mesma semana, ainda tivemos que assistir ao horror do assassinato do Genivaldo pelos policiais rodoviários, praticado com requinte nazista de execução – usaram uma câmara de gás -, e com deboche. É preciso mais do que apenas sofrer junto com a família e os amigos. A resposta tem que ser única, direta e firme. Foi um assassinato frio e cruel, filmado e presenciado por inúmeras pessoas. À luz do dia e sem escamotear. A resposta tem que ser proporcional ao descaramento dos policiais! Foi um sinal claro de que a barbárie não precisa mais se esconder. Um acinte. Uma provocação.

 

A sociedade que assiste calada a um ato brutal como esse está aprovando os métodos daqueles que, tendo como herói um Presidente apologista da tortura, saíram do armário e estão espalhando orgulhosamente o terror. Socorro-me de Augusto dos Anjos: “Bati nas pedras dum tormento rude e a minha mágoa de hoje é tão intensa que eu penso que a alegria é uma doença e a tristeza é minha única saúde!

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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