Resistência lírica, por Kakay

“Noturno sou,
mas sem noite.

A grade já não mais
me prende a morada:
a treva sou eu,
o escuro morreu.

Eis o meu segredo:
todas as noites
me deito num livro
para em outra vida desaguar.

Rio escapando da margem,
margem escarpando um rio.

Agora,
meu ouro é a palavra.
Agora, a poesia
é a minha única visita de família.”
Mia Couto

Se o mundo fosse uma ficção e se quiséssemos projetar o caos em um romance, dificilmente seria possível descrever, criar, ainda que com a genialidade dos grandes escritores –como Clarice, que faria 100 anos neste 10 de dezembro–, um desastre sob o prisma humanista, social, cultural, de costumes, meio ambiente, enfim, a chocante realidade que nos acomete com a crise sanitária em um governo genocida e fascista. Como disse o grande Jose Carlos Dias, “a pandemia e o pandemônio”, ou o vírus e o verme.

Sempre Clarice Lispector:

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige.

Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece.”

Cansa falar de tantos desatinos, tantos crimes de responsabilidade, falta de empatia, visão mínima humanista, desprezo pela solidariedade. Um culto à morte e à extrema crueldade, frieza, ignorância, insensatez, tudo extrapola qualquer divergência política. Há tempos não se trata mais disso, é mesmo uma questão de ter responsabilidade com a vida, com a dignidade, com o futuro dos nossos filhos.

O isolamento social, o medo no enfrentamento do desconhecido, a proximidade da morte que se expressa em números chocantes, 180 mil brasileiros, o caos econômico. Tudo isso, sem a menor possibilidade de erro, terá um efeito forte sobre cada um de nós. Como enfrentar este túnel estreito e com ar rarefeito onde estamos é o que merece nossa reflexão.

Tenho acompanhado todo esse drama e escrevi sobre a “Angústia existencial” nossa de cada dia. Não podemos nos render à mediocridade e deixar a desesperança tomar corpo com esses negacionistas que ridicularizam a ciência, a doença, a vacina, a inteligência. Eles é que são obscenamente ridículos. Embora, como são indigentes intelectuais, sequer tenham a dimensão de serem ridículos. Vivem em um mundo à parte, mas com efeitos deletérios na realidade.

Por isto o exercício da resistência diária é uma fuga imprescindível para um mundo lúcido, que nós podemos criar e que nos acolhe. Escrevi sobre a “Raiva libertadora” que nos possibilita resistir e não explodir frente a tantas barbáries. Canalizar a raiva pode salvar o coração desiludido e que precisa voltar a bater em um ritmo cadenciado pela solidariedade.

Mas também é preciso nos transportar para um espaço lúdico. Não nos igualar a esta gentalha, não perder a visão literária, nos permitir transitar por mundos imaginários, que podem parecer mais reais do que o pesadelo que nos aflige. Encontrar espaços, maneira de enfrentamento desse caos.

Quando optamos por não conviver com pessoas obtusas, a retirar do dia a dia, dos nossos contatos, esses agentes do caos, temos que saber a importância de, por outro lado, priorizar e valorizar o afeto, a amizade, o carinho, o respeito. Reconsiderar nossas rabugices e nos oferecer para as pequenas coisas necessárias e fundamentais do cotidiano. É bom ler o velho Manoel de Barros, nosso Caeiro brasileiro:

“Uso as palavras para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.

Dou respeito as coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.

Meu quintal é maior do que o mundo
Sou um apanhador de desperdícios.”

Sem um olhar mais simples para nós mesmos dificilmente conseguiremos ver além do precipício. A poesia, como tenho dito, é uma companheira destes tempos sombrios. Mas é preciso frisar que o enfrentamento crítico e direto das mazelas pode e deve ser feito. Estar certo de que temos que resistir, sem abaixar na hora do tapa, mas sem nos embrutecer. É nesta mistura, que nos define e descreve, que devemos insistir. E olhar para o mundo também com olhos de querer ver.

O escárnio com que tratam as mulheres, os negros, os pobres e os homossexuais começa a ter uma resposta ainda não muito forte, mas já perceptível. A reação de uma sociedade emudecida já se pode ver nos movimentos de paridade para as mulheres, no grito de que vidas negras importam, que não basta não ser racista temos que ser antirracista, na eleição de trans para as Câmaras, na ridicularização da falsa política de meritocracia.

Enfim, a necessidade de voltarmos a usar armas que não as letais que eles portam. Usar o humor, a ironia, a irreverência, a alegria. Tudo que faz falta nesses medíocres, tudo que, talvez, eles nem percebam dentro do círculo de horror que os prende. Não permitir que as amarras desses canalhas nos aprisionem, não deixar que a brutalidade e insensatez nos asfixiem.

Resistir com resiliência e resgatar a esperança em um mundo mais igual e solidário. É este mundo que fará com que os bárbaros sucumbam. Eles não sobrevivem em um espaço onde as pessoas são iguais. Por isto, também, precisamos vencer a pandemia pois, repito o que tenho dito, o abraço, o beijo, a fraternidade e o sonho de um mundo mais justo serão nossas companheiras e nossas armas nessa travessia.

Se necessário, saberemos endurecer, mas sem perder a ternura jamais. Nos apegando sempre ao imortal Fernando Pessoa no seu Poema em linha reta:

“Eu nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho vivido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Quem me dera de ouvir a voz humana

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”

Publicação Original: Poder 360

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