OPTEI POR NÃO IR À COPA, MAS TORÇO DAQUI!

Não gosto de ver tanta água reunida

sei que é o mar

mas nada é o que parece.

Visto de Guantánamo

o mar são grades de infinitas tessituras

visto de Goreé

é o marulhar multissecular de lágrimas exangues

preferia que a água se dispersasse.”

Boaventura de Sousa Santos, livro 139 epigramas para sentimentalizar pedras

 

Ainda bem que a Copa do Mundo é de quatro em quatro anos. Para nós, que amamos o futebol e estamos acostumados à paixão por um clube e às tradicionais birras, implicações e brigas com as torcidas dos times adversários, tudo é estranho. Embora faça parte do jogo. Uma das delícias do futebol é exatamente torcer contra a equipe rival e zoar os amigos amantes dos adversários. Ver o Atlético Mineiro perder é quase tão bom quanto ver o Cruzeiro ganhar. Normalmente, Copa do Mundo é outra lógica.

 

Nesta Copa, embora não seja propriamente uma novidade, há, para mim, um espanto interessante: a união que existe, de maneira quase indiscriminada, contra as grandes equipes europeias. Há muito tempo, os países ricos europeus, acostumados a colonizar o mundo afora, usam do poder econômico para tirar dos países africanos e dos sul-americanos os grandes talentos do futebol.

 

Até o poderoso Japão entrou nessa rota. Dos 26 jogadores japoneses convocados, 23 jogam fora do Japão. E agora, de alguma maneira, esse uso ostensivo da força do dinheiro volta contra os países perdulários e favorece os que mais usam a força do talento no futebol nas competições do dia a dia. Assistir ao Paraguai eliminar a poderosa Alemanha, a quarta equipe mais cara do mundo, deu um gostinho de vingança. Indefinido, mas delicioso. E acompanhar o Marrocos ganhar da poderosa Holanda foi outra alegria indecifrável. Não existe um motivo explicável; no futebol é assim: é bom e basta.

 

O Brasil sofreu para passar pelo Japão, país que, além de mandar suas estrelas para jogar na Europa, teve um professor do tamanho do gênio Zico. Mas todo esse movimento torna o futebol ainda mais emocionante. E é divertido acompanhar os grupos repletos de “torcedores de Copa” que acompanham futebol de quatro em quatro anos.

 

No jogo do Brasil contra o Japão, nosso time sofria com os desempenhos medíocres de Paquetá, Casemiro e outros. Um futebol muito abaixo da tradição da camisa verde e amarela. E é evidente que nós, torcedores do bom futebol, fizemos muitas críticas. Algumas merecidas; outras, só pelo prazer de zoar os erros infantis, mas dentro do espírito de brincar com o futebol.

 

No final, Casemiro fez o gol de empate. Sim, estávamos perdendo para o Japão e sendo eliminados. Nos grupos, surgiu uma enorme cobrança de coerência por parte dos críticos. Até com mensagens sugerindo pedido de desculpas! Realmente é de quem assiste a tênis, golfe, polo equestre.

 

Optei por não ir aos EUA na Copa. Um protesto silencioso, individual e sem nenhuma relevância contra os absurdos do governo Trump, contra a subserviência da FIFA, contra a truculência aos jogadores do Irã – impedidos de dormir em solo norte-americano -, contra as revistas humilhantes a algumas seleções, contra a não participação do juiz somaliano e, enfim, contra o fascismo praticado pelo governo de extrema direita. Até brinquei que, se tivesse certeza de que, ao chegar aos EUA, eu seria só deportado, correria o risco, pois seria um charme e uma história para contar. Mas a ultradireita prende e humilha.

 

É claro que essa opção não tem a menor relevância, porém, é assim que funciona a vida. Fazer as coisas de acordo com sua consciência e sua opinião. Não necessariamente pela repercussão ou pensando nos outros. Na hora de torcer no futebol, também é um pouco assim. A gente torce e vibra com o Paraguai vencendo a Alemanha, assim como viramos torcedores dos países africanos.

 

E, anotem os puristas: não devemos satisfação com a lógica dos torcedores que só veem futebol de quatro em quatro anos. Mas toda torcida é bem-vinda. Vamos estar juntos contra a Noruega no próximo domingo.

 

Lembrando-nos do velho Manoel de Barros, no poema Infantil, no Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo:

 

O menino ia no mato

E a onça comeu ele.

Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino

E ele foi contar para a mãe.

A mãe disse: mas a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo?

É que o caminhão só passou renteando o meu corpo e eu desviei depressa.

Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.

Eu não preciso de fazer razão.”

 

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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