BRASIL: UMA GRANDE MESA DE BOTEQUIM
“Se você não pode convencê-los, confunda-os.”
A.C. Wilson
Estamos às portas de uma eleição presidencial que, de certa forma, pode decidir o destino do Brasil. Não é um pleito entre dois grupos opositores, mas sim entre aqueles que têm como base princípios e conceitos democráticos e outro não. Se fossem grupos opostos, mas democráticos, independentemente de quem ganhasse, o país prosseguiria em um Estado democrático de direito. Numa Democracia, a alternância de poder muitas vezes é benéfica e traz vida e cor para as opções mais à esquerda, à direita, ao centro.
Não é porque tenho uma visão mais esquerdista que deixo de respeitar uma posição de centro-direita democrática. Posso pensar que os governos do presidente Lula foram muito melhores para as classes trabalhadoras, para o pobre: criaram muito mais opções para melhorar a distribuição de renda e deram opções incomparavelmente maiores de ascensão social para o povo brasileiro. Sem desprezar, antes, reconhecendo, as conquistas democráticas dos governos de Fernando Henrique Cardoso.
Uma outra coisa é quando a disputa se dá com a extrema direita. O grupo bolsonarista não tem nenhum projeto de país. Os 4 anos da gestão Bolsonaro foram um caos e a desestruturação de todas as conquistas foi assustadora. O candidato Flávio Bolsonaro nunca fez absolutamente nada na sua vida pública e, numa hipótese de ganhar, a estratégia é entregar o Brasil aos EUA. E a consolidação da extrema direita fará uma hecatombe na vida do brasileiro, especialmente entre as classes menos favorecidas. Será uma tragédia em todas as áreas. Perderemos os avanços dos últimos anos na saúde, na educação, na economia e na cultura, enfim. Seremos tragados para um imenso precipício de obscuridade e atraso.
E o pior é que estamos fazendo o jogo deles. Há menos de 20 dias das eleições, não se discute o essencial para o país e para o povo brasileiro. Não se contam os avanços do governo. As pessoas querem ver propostas de economia, de emprego e de opções para os jovens. Todas as pautas que falam direto com os trabalhadores, como o fim da jornada 6×1, a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, a valorização real do salário mínimo, a ampliação das garantias trabalhistas, o fortalecimento das negociações coletivas, o cuidado com o meio ambiente, a defesa da soberania nacional e de um projeto brasileiro para as terras raras e minerais críticos, enfim, tudo o que realmente interessa para o povo, de certa forma, saiu da mesa de discussão e da pauta eleitoral.
O Brasil virou uma grande mesa de botequim, onde só se debatem as peripécias do Banco Master, a disputa sanguinária de poder no Supremo Tribunal, os vazamentos criminosos de investigações sigilosas e o aceno da ultradireita ao governo Trump. Tudo o que a extrema direita quer e precisa. Um não-projeto fascista de governo vai se consolidando em um enorme vácuo político de ideias.
Tornou-se mais importante, estrategicamente, para esse grupo vazio discutir as relações entre os poderosos do que levar ao eleitor o que será feito para mudar a vida do trabalhador. Ou seja, o bolsonarismo conseguiu levar a discussão eleitoral para o ambiente natural dele, em que trafega bem: o esgoto, o submundo, a mentira, a corrupção e a lama. E, ainda que com um número expressivo de eleitores indecisos, temo que a aposta da extrema direita esteja se consolidando e que o precipício vá lentamente se aproximando.
E nós todos vamos caminhando para um voo no vazio.
Como nos ensinou o imbatível Millôr Fernandes: “O segredo da política é fazer um pacto com o diabo e depois dizer que o diabo é o outro”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
